quinta-feira, novembro 16, 2006

"Como construir a sua moradia sem ter que aturar um arquitecto"

via: http://www.sobrevoando.net


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de
Rui Campos Matos
(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Arquitectura e Território)

Quantas pessoas, quando chega o momento de construir a moradia com que sempre sonharam, não passam pela aflição de perguntar a si próprias: será que vou ter de aturar um arquitecto?

Neste pequeno artigo, tentarei explicar como construir uma nova casa, sem se sujeitar às exigências de um desses profissionais. Para que o empreendimento seja levado a cabo com êxito há que fazer três importantes escolhas: estilo, técnico e empreiteiro.














O estilo

Eis-nos perante a primeira decisão a tomar - o estilo da casa. Felizmente não é difícil porque existem apenas dois: o tradicional (também conhecido por rústico) e o moderno, que vem colhendo cada vez mais adeptos entre os jovens.
O tradicional caracteriza-se pelo típico telhado de aba e canudo, a janela de alumínio aos quadradinhos, a lareira de cantaria com a sua chaminé e o imprescindível barbecu, testemunho dos inumeráveis prazeres da vida rústica. Já o moderno é completamente diferente, tão diferente que até as coisas mudam de nome. O telhado desaparece, dando lugar à cobertura plana; a janela perde os quadradinhos e passa a chamar-se vão; à chaminé, em tubo de aço inoxidavel, chama-se fuga; e barbecu é um termo obsceno que deve ser evitado na presença das senhoras.
Não existem, pois, quaisquer espécie de dúvidas quanto a questões de estilo - ou se é tradicional ou se é moderno, as duas coisas ao mesmo tempo é impossível.

O técnico

Escolhido o estilo, há que escolher o alfaiate, que aqui designaremos pelo técnico. Trata-se de uma escolha muito fácil, porque o que não falta são técnicos. Intitulem-se eles construtores civis diplomados, agentes técnicos de engenharia, electricistas habilitados ou desenhadores habilidosos, todos se regem pela mesma cartilha, a de João de Deus: o pinto pia, a pipa pinga… Não passaram cinco anos a estudar arquitectura? Não estagiaram mais dois? Que importa isso?

Concentremo-nos apenas nas suas virtudes:
1- Projecto elaborado em tempo recorde.
2- Preço: 999 €.

Mas como conseguem eles ser tão eficazes?

É simples: antes de encomendado, o projecto já está feito. Até parece milagre! Mas não é, o que se passa é o seguinte: o técnico tem duas pastas no computador, uma para projectos em estilo tradicional, outra para os modernos. Escolhido o estilo pelo cliente, é fácil, emenda daqui, remenda de acolá e, numa tarde, o projecto está feito! Para quê complicar?
“Mas o rapaz parecia semi-analfabeto, disse que não podia assinar o projecto, mas que havia outro técnico que podia…”. Não é caso para preocupações, trata-se de uma situação corrente em que um técnico analfabeto paga a um técnico habilitado para que este, a troco de uns trocos, assine de cruz. Está tudo incluído no pacote e, (ironia do destino!), quantas vezes o técnico habilitado não é um arquitecto daqueles que faltaram às aulas de religião e moral…
Aprovado o projecto, o técnico já não é preciso para nada. É dizer-lhe adeus que ele até agradece, porque de obra não percebe nada nem quer perceber, quem percebe disso é o empreiteiro – a nossa terceira e última escolha.

O empreiteiro

O primeiro encontro entre cliente e empreiteiro costuma ser decisivo. É nele que terá de se estabelecer, entre o primeiro e o segundo, uma relação de confiança cega, em tudo semelhante à fé. A fé de quem acredita que, com um projecto feito por um técnico, que não especifica nada, que não pormenoriza nada e que não quantifica nada, não vai ser enganado por um homem que passa o dia a fazer contas de cabeça… Entre cinco pequenos empreiteiros, como escolher o indicado para construir a moradia? Infelizmente, chegados a este ponto, não posso recomendar senão fé, muita fé e confiança, porque tudo o resto é irrelevante:
1- O valor do orçamento é irrelevante, foi feito com base no projecto do tal técnico, é um número atirado para o ar, um número que, com os imprevistos, há-de subir ainda umas quantas vezes.
2- O prazo estabelecido para concluir a obra vai depender do bom ou mau tempo e, nesse capítulo, só Deus sabe.
3- As garantias dadas são as que estão na lei - cinco anos. Se a casa apresentar defeitos, reclame; se a reclamação não for atendida, recorra ao tribunal (também pode recorrer ao pai natal se achar que demora menos tempo…)
Em suma, não vale a pena perder tempo com ninharias, o mais importante é ter fé.

Conclusão

Se, apesar de conscienciosamente feitas estas três escolhas, as coisas não correrem lá muito bem, se a casa ficar pelo dobro do preço, se no Verão se assar lá dentro e no Inverno se tiritar de frio, se para abrir a porta do armário for preciso arrastar a mesa de cabeceira, se o vizinho protestar com o barbecu, se a cobertura plana meter água, não vale a pena desesperar, resta sempre a consolação de não ter tido de aturar um arquitecto.





Rui Campos Matos

arquitecto

Comments on ""Como construir a sua moradia sem ter que aturar um arquitecto""

 

Anonymous Anónimo said ... (quinta-feira, 16 novembro, 2006) : 

Arquinovela na «Habitar Portugal 2003/2005»

M.F. : Olá M. está tudo bem contigo?
M. : Sim, tudo!
M.F. : O que tens feito?
M. : Acabei em fevereiro de 2006 os estágios! Agora estou a fazer um projecto de habitação.
M.F. : Ai, sim! Mas é habitação multi ou unifamiliar?
M. : Ah! Não! É bifamiliar! Ahahah. Mas tenho feito outras coisas para ter comida na mesa, não se consegue viver disto!

in "http://vaziodegente.blogspot.com/"

 

Anonymous Anónimo said ... (sábado, 18 novembro, 2006) : 

Triste, mas pura verdade...

Dou-vos o exemplo da "santa terrinha" da minha mãe. Uma aldeia perdida nos confins da Beira Interior. Por lá, naquele Concelho, quase todos os projectos são feitos pelo Sr. Engº.! Pensava eu "olha, um engenheireco civil, que se estabeleceu aqui e arrebata tudo e mais alguma coisa, em termos de projectos".
Mas o mais drástico é quando um familiar afastado (pois, porque ali todos são familiares, mesmo que nunca os tenha visto na vida, nem mais gordos, nem mais magors...), que queria fazer a sua casinha de "arco e balão", com telhadinho, alpendre, balaustrada e portada verde de alumínio, ou seja, tudo o que o suposto estilo rústico contempla, me chegou com uma cópia de um desses projectos de licenciamento ás mãos, para eu dar uma olhada, e dizer o que achava... Enfim, não há comentários! Muito mau, mesmo... Para não falar de que aquilo de arquitectura nada tinha, a construção não iria "contar história" nehuma, concepação espacial muito pobre, enquadramento local, tanto fazia estar num sítio como noutro, estava francamente mal representado do ponto de vista técnico, enfim, um rol de atributos negativos que nunca mais acabavam. Mas o mais interessante ainda foi, ao ver o Termo de Responsabilidade do Projecto (supostamente de Arquitectura):
"Eu, blá, blá, blá, blá.... engenheiro técnico civil (bacherel), inscrito na ANET..., blá, blá, o projecto de arquitectura de que sou autor cumpre blá, blá, blá..."! Fiquei em pânico. Um individuo que nem sequer uma licenciatura em engenharia tem, quanto mais de arquitectura, estava a assinar um (suposto) projecto de arquitectura. Eu que tirei a minha licenciatura, ainda me espetaram com um estágio ilegal, fiz um exame de admissão onde reprovei, e com tudo isto, ando há cerca de 3 anos para conseguir ser membro efectivo da OA, e não posso ainda assinar um projecto!
Claro que os meus comentários para esse familiar, relativamente à minha avaliação da obra que ele iria levar a cabo não foram tão drásticos, apenas me limitei a uns esgares, a torcer o nariz, com uns "pois" e "enfins" á mistura, mas mesmo assim quase que ofendia o homem. Com que direito, eu, um arquitectozito da treta, como ele devia achar, estava a denegrir aquela obra de arte que seria a sua futura e nova casa, e que o grande "Xôr Engenheiro" tinha feito??? E ainda me disse com orgulho que o "projecto completo" (há projectos incompletos? Presumo que ele se tava a referir a todo o licenciamento de obra e respectiva conclusão,lololol...) lhe iria ficar em "200 contos" (1000 Euros, lol)!

E este Engº Técnico continua no seu feudo, a levar os tais "200 contos" por projecto, a fazer a moradia dos sonhos de cada um dos nossos queridos habitantes, tem grande influência a nível camarário, segundo dizem as "bocas", e tudo está bem, naquele longínquo Portugal, onde o arquitecto quase não sabem para que serve, e ao que parece isto acontece em todo o lado por este país... E depois nós ainda ouvimos, vocês arquitectos são muita "careiros" e têm a mania!

Não são só as leis tipo D.L. 73/73 que têm de ser mudadas. Também as mentalidades o deverão ser... Para muitas pessoas o arquitecto é um "bicho" mau de que se deve fugir e evitar a todo custo. Para muita gente, a ideia é que fazemos bonecos, não mais que isso, não percebemos nada de nada e queremos ganhá-lo todo de uma vez. Esta é a imagem que infelizmente temos para grande maioria das mentalidade "portuguesinhas"...
E mesmo que todos os "73/73" deste mundo desapareçam de vez, há-de haver sempre alguém que "assine"... E os tais "200 contos" continuarão a ser cobrados, para alegria de muitos, que assim verão a sua "casinha de sonhos", à boa maneira rústica (ou qualquer coisa que isso seja), e evitanto os tais tipos que só fazem bonecos!

Infelizmente, é o país que temos...

Rodrigo Ferreira, Arqº.

 

Anonymous Maria Real said ... (domingo, 19 novembro, 2006) : 

Adorei, o artigo "Como construir a sua moradia sem ter que aturar um arquitecto" retrata na perfeiçao o pais que temos, as mentalidades retrogadas, a falta de planeamento quer orçamental quer ambientalista etc...
Vivam os arquitectos, o bom gosto, o saber e a qualidade na construçao!
Força Arquitectos um dia este povo acabara por abrir os olhos...
Pena é nao ser amanha a véspera, mas enfim saber esperar é uma virtude

 

Anonymous Anónimo said ... (sábado, 25 novembro, 2006) : 

N sei bem se o pais acorda ou se continuamos a dormir a sombra dos outros...O q me parece é que de acordo com previsões sobre as novas profissoes futuras as que estão em risco são presisamente as de Arq. e de Eng... Ou seja dentro de alguns anitos esta tanga toda desaparece e os nossos queridos netinhos ainda se vão rir do q estamos a passar.

"Olha lembras-te no tempo dos nossos bisavos e trisavos tinha um curso superior de Eng. e Arqt. imagina que eles tinham que fazer as contas todas e os desenhos para podermos fazer as nossas casinhas".

Pois é, hoje qualquer computadorzeco de segunda faz isso.

 

Anonymous Anónimo said ... (terça-feira, 28 novembro, 2006) : 

Dos computadores só sai o que lá metem...

 

Anonymous Carlos said ... (quarta-feira, 08 agosto, 2007) : 

Boa tarde,
E se esse arquiteto falar que vai acompanhar a obra e só aparece para receber, e se o projeto demorar muito para ser aprovado e o arquiteto não esta nem ai mesmo combinando que ele iria ver isso, e se o projeto te deixou com duvidas mais ele o arquiteto fala que está tudo bem.
O que tenho que fazer?

 

Blogger arqportugal.blogspot.com said ... (quinta-feira, 09 agosto, 2007) : 

Talvez mudar de arquitecto

 

Anonymous Um não arquiteco said ... (quinta-feira, 18 junho, 2009) : 

Grande dor de cotovelo e mania de saberem tudo têm os aqrquitectos! Haja paciência! Assim como há maus profissionais nos eng tb os há nos arquitectos!

 

Blogger Unknown said ... (quarta-feira, 14 outubro, 2015) : 

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Blogger CASA PRO ERA Vila do Conde said ... (quarta-feira, 28 setembro, 2016) : 

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